Associação Brasileira da Construção

Industrializada de Concreto

Construcarta Conjuntura: Inflação dispersa

Nos manuais de economia, a inflação é definida como uma alta generalizada de preços. E, em níveis baixos – até 3% ou 4% ao ano, por exemplo – esse fenômeno não costuma estar associado a grandes variações nos chamados preços relativos. Assim, conseguimos sair de casa tendo em mente quanto um litro de gasolina é mais caro do que um litro de leite ou de refrigerante, por exemplo. Mas, em tempos de forte aceleração inflacionária, é comum observar um outro fenômeno: a dispersão de preços. Isso ocorre quando o ritmo de alta começa a variar muito entre produtos – bens ou serviços – ou entre grandes categorias – como cuidados pessoais e materiais de construção, por exemplo.

Na atualidade brasileira, esse cenário de dispersão tem sido observado de forma quase dramática nos meses recentes. Sua expressão mais direta é o distanciamento entre os índices ao consumidor e ao produtor. Assim, segundo a FGV-IBRE, o IPC – Índice de Preços ao Consumidor acumula alta no ano até março de 1,56%. Mas o IPA – Índice de Preço ao Produtor Amplo atingiu a marca de 7,21% na mesma base de comparação. Em termos do acumulado em doze meses essa diferença é ainda mais marcante: 5,55% contra 40,88%, respectivamente. Desagregando esses dois indicadores, o quadro de dispersão se mostra ainda mais intenso.

Assim, enquanto os itens de vestuário contidos no IPC tiveram alta acumulada de apenas 0,15% nos doze meses encerrados em março, as matérias-primas brutas que compõem o IPA se elevaram 67,37% no mesmo período.

Duas questões se colocam em momentos em que a inflação tem esse comportamento. De um lado, muitos agentes econômicos, tanto consumidores quanto empresas, começam a não se sentir “representados” pelos índices. Isso porque a cesta de produtos que fundamenta a metodologia de mensuração da inflação, compreendida como uma média representativa de cada indicador, pode descolar do padrão efetivo de gastos daqueles mesmos agentes. Assim, uma família de baixa renda que gasta boa parte do que ganha com alimentos certamente estará experimentando uma inflação pessoal acima dos índices ao consumidor. Do mesmo modo, uma obra da construção civil cujo projeto esteja em uma fase intensiva na aquisição de certos insumos também estará sendo mais onerada do que sugerem índices como o IPA ou o INCC – Índice Nacional de Custos da Construção Civil, por exemplo.

A segunda questão se refere à precisão dos próprios índices de preço e custo. Não se deve atribuir aquelas distorções aos próprios indicadores, mas sim ao fenômeno da dispersão de preços. Descolamentos de grupos de itens, componentes dos índices, são um fenômeno contínuo. Sempre haverá os chamados “vilões da inflação”, bens ou serviços que “puxam” as variações dos índices. Em condições de inflação baixa, existe uma alternância nesses movimentos que acabam por se compensar no tempo. O que a alta recente da inflação está fazendo por conta da gravidade da aceleração é tornar esses descasamentos muito maiores e, por conta disso, muito mais impactantes para pessoas e empresas.

A íntegra da análise desenvolvida pelo FGV/Ibre para o SindusCon-SP está disponível aqui.

Matéria publicada no Sinduscon-SP