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Construcarta Conjuntura: PIB – ou como a Pandemia Impactou o Brasil

Principal indicador da atividade econômica, o PIB brasileiro registrou queda de 4,1% em 2020 segundo dados divulgados pelo IBGE. Esse é um número que resume um paradoxo aparente. De um lado, é uma queda histórica, digna dos períodos de guerra. De outro, surpreende positivamente, pois fico aquém de expectativas divulgadas em meados do primeiro semestre. Naquele momento, alguns analistas nacionais apontavam recuo de até 6,5% no ano e o FMI chegou a projetar 9%.

Considerando os três grandes setores da economia, a agropecuária foi o único a ter crescimento no ano (2%). Nessa base de comparação, a indústria recuou 3,5% e o setor de serviços, mais severamente afetado, registrou queda de 4,5%. Como respondem por parcela expressiva do PIB total, os serviços tiveram influência decisiva para a queda global de 4,1%.

Considerando os componentes da demanda, houve queda de 0,8% na formação bruta de capital fixo em relação a 2019. O consumo das famílias recuou 5,5%, revelando forte impacto do distanciamento social causado pela pandemia. O consumo do governo, por sua vez, recuou 4,7% na mesma base de comparação.

O resultado anual “menos ruim” do que aquelas projeções de meados de 2020 foi consequência da recuperação registrada nos dois últimos trimestres. Assim, na série com ajuste sazonal, o PIB do quarto trimestre teve alta de 3,2% na comparação com o período imediatamente anterior. Indústria e serviços apresentaram variação positiva de 1,9% e 2,7%, respectivamente, enquanto a agropecuária recuou 0,5%.

Com esse desempenho, tanto indústria quanto serviços voltaram aos patamares próximos aos do primeiro trimestre, quando os efeitos da pandemia ainda haviam sido muito limitados. Considerando o ponto mais baixo das séries (segundo trimestre), as altas acumuladas desses dois setores até o final do ano foram de 16,9% e 9,3%, respectivamente. Nessa base de comparação, a agropecuária teve queda de 1,1%.

Pela ótica da despesa, o destaque do terceiro trimestre foi a formação bruta de capital fixo, com crescimento dessazonalizado 20%. Também cresceram o consumo das famílias e a despesa de consumo do governo: respectivamente, 3,4% e 1,1% em relação ao trimestre imediatamente anterior. As exportações caíram 1,4%, enquanto as importações avançaram 22% sempre na comparação dessazonalizada com o terceiro trimestre.

Olhando adiante, o desempenho do PIB nos próximos trimestres estará bastante condicionado ao comportamento do consumo das famílias e do setor de serviços. As incertezas se elevaram muito desde o início de 2021 por conta da segunda onda de Covid-19, do atraso na vacinação e das indefinições sobre a volta do auxílio emergencial. A necessidade de impor novos lockdowns já não se restringe a nenhuma região específica e tende a afetar a economia, com destaque para os efeitos negativos sobre segmentos do comércio e dos serviços. Ao mesmo tempo, caso volte, o auxílio emergencial só terá impacto no segundo trimestre, mas como não deverá ter a mesma magnitude do que foi pago no ano passado, os efeitos serão menores.

Na construção civil, a retração de 7% no ano foi superior à maioria das projeções. Não foi o recorde da série do IBGE, mas a inflexão do crescimento levou o PIB do setor a ficar 33% abaixo do patamar alcançado em 2013.

A forte retração do PIB da construção se contrapõe a outros indicadores setoriais, que mostram um panorama mais favorável. Em 2020, o volume de vendas do comércio de materiais, também pesquisado pelo IBGE, teve alta superior a 10%. Por outro lado, a produção da indústria, uma das variáveis que compõem a estimativa do PIB trimestral, teve queda de 0,3% mostrando o descompasso entre as duas atividades. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua, a outra variável considerada pelo IBGE para o cálculo do PIB, mostrou que o número de ocupados caiu expressivamente – com redução superior a 800 mil pessoas no total de ocupados.

Olhando apenas o segmento formal da construção, a Sondagem do FGV IBRE apontou a retomada dos negócios no segundo semestre, mas também vem captando o crescimento das incertezas. Em 2021, o PIB setorial voltará a crescer, mas o caminho para retomar o patamar de 2013, será longo.

A íntegra da análise realizada pela FGV em parceria com o SindusCon-SP está disponível aqui.

Matéria publicada no Sinduscon-SP