Associação Brasileira da Construção

Industrializada de Concreto

Atividade da construção retorna ao patamar pré-Covid 19

Com o emprego em elevação pelo terceiro mês consecutivo, a indústria da construção retornou ao nível de atividade anterior à pandemia do novo coronavírus – em ascensão, porém ainda bastante baixo, comparado a 2014. Entretanto, a sustentação deste movimento em 2021 dependerá de fatores que ainda não se vislumbram, como uma política econômica que estimule a elevação da renda e da produtividade.

Esta foi uma das conclusões da Reunião de Conjuntura do SindusCon-SP, realizada virtualmente em 6 de outubro, sob condução do vice-presidente de Economia, Eduardo Zaidan, e com a participação do presidente da entidade, Odair Senra.

Zaidan chamou a atenção de que “sem aumento da renda, não há construção civil; não se constrói para a indústria, o comércio, os serviços; a demanda das famílias por imóveis empaca; a arrecadação do governo não cresce e com isso não sobram recursos no Orçamento para investimentos em obras públicas”.

De acordo com o vice-presidente, falta um trabalho do governo no sentido de elevar a renda para os mais de 100 milhões de pessoas que compõem a população economicamente ativa, de modo que parte desse aumento resulte em demanda para a construção civil. “É preciso elevar a produtividade macroeconômica do país e não vejo um trabalho do governo nessa direção. E há o problema político, sem consenso sobre o caminho a seguir”, afirmou.

Recuperação da construção 
Em sua apresentação, Ana Maria Castelo, coordenadora de projetos da Construção da FGV/Ibre, mostrou os números que indicam a retomada da atividade. Entre eles, o aumento do emprego no setor a partir de junho, sendo que em agosto o saldo de novos postos de trabalho na construção representou 20% do saldo positivo do país. Dos novos empregos no setor, 17% foram criados no Estado de São Paulo, percentual que, segundo ela, poderá aumentar.

A economista mostrou os resultados da Sondagem Nacional da Construção da FGV de setembro, na qual a percepção é de que os negócios recuperaram o nível de atividade anterior à Covid-19. A percepção da situação atual ainda está no nível de pessimismo, com a preparação de terrenos tendo ingressado no patamar moderadamente pessimista. A demanda insuficiente ainda prevalece como fator limitante aos negócios, embora em queda, enquanto a preocupação com o custo dos materiais começa a subir. Já a expectativa futura segue em ascensão, agora em nível de pessimismo moderado, perto do patamar neutro, da mesma forma como o indicador de confiança do setor.

Ana Maria registrou a recuperação do mercado imobiliário, especialmente no segmento popular. Segundo ela, “a redução da taxa de juros dá protagonismo ao investimento em imóveis e também anima as famílias à aquisição da casa própria. Mas esse dinamismo não se manterá se a economia e a renda das famílias não se recuperarem de forma mais significativa.”

Ela também mostrou a recuperação nas vendas da indústria e do comércio de materiais, levando inclusive a atrasos de fornecimento. E registrou que, na produção física de materiais, houve ligeira queda em agosto, o que se refletirá no próximo PIB trimestral da construção.

De acordo com a economista, as incertezas permanecem, como a questão fiscal, a questão política e a necessidade de garantir renda ao grande contingente da população que precisa ser assistido. “No caso da construção, também preocupa o aumento de preços dos materiais e serviços, aproximando-se de 9% no ano até setembro, o maior dos últimos anos.”

“Há um mercado potencial tremendo das famílias novas que se formam. Se não houver aumento da renda, não melhorará o mercado, a não ser que elas recebam 100% de subsídios, o que é improvável. Precisamos de produtividade e de recuperação da economia. Na infraestrutura, a questão é saber se o que foi feito até agora, como a melhora do marco regulatório, é suficiente para atrair investimento estrangeiro. Já o aumento da carga tributária (embutido na proposta de reforma tributária do governo) poderá prejudicar essa atração. Outro problema é a questão ambiental, que preocupa os investidores externos. E um desafio adicional será desonerar a mão de obra sem aumentar o déficit da Previdência.”

Mais produtividade 
Em sua análise, o professor da FGV Robson Gonçalves afirmou que a forte demanda do varejo de materiais para pequenas reformas que elevou os preços desses insumos não deve se sustentar nos próximos meses.

De acordo com o economista, na construção não se trata de baratear os imóveis e sim de aumentar a produtividade, pois não se vislumbra uma redução sustentada de custos. O governo está preocupado com a criação do Renda Cidadã, mas não é com isso que se fará o crescimento da economia em 2021, acrescentou.

Gonçalves também registrou a existência de um movimento de recomposição de ativos, especialmente nos segmentos de renda alta, que resulta em investimentos imobiliários.

Refletindo a recuperação demonstrada nos últimos meses, a projeção para o PIB (Produto Interno Bruto) da construção em 2020 melhorou. O Relatório Trimestral de Inflação do Banco Central (BC) relativo ao terceiro trimestre projeta queda de 5% no setor, assim como na economia em geral. No trimestre anterior, as retrações estimadas eram de 6,7% para a construção e 6,4% para o país.

Matéria publicada no Sinduscon-SP