Associação Brasileira da Construção

Industrializada de Concreto

Boletim da Construção – Março de 2026

Em fevereiro o mundo presenciou o início de um forte turbilhão de conflitos geopolíticos, sem uma perspectiva clara de fim. O início da guerra dos Estados Unidos e Israel com o Irã ampliou ainda mais as incertezas globais, que já haviam começado o ano em nível muito elevado, por conta, entre outros fatores, das intervenções dos EUA na Venezuela e das ameaças do país norte-americano à soberania da Groenlândia. O principal impacto global da guerra tem sido, até o momento, sobre o preço do petróleo, que atingiu seu maior patamar em quatorze meses (no dia 05 de março de 2026, quando do fechamento desta edição), o que tende a elevar a inflação global e dificultar a redução dos juros em nível mundial. Paralelamente, a Suprema Corte dos EUA anulou as tarifas de até 50% impostas pelo presidente norte-americano com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional de 1977 (IEEPA), por entender que o instrumento não autoriza o Executivo a aplicar tarifas. Em resposta, Trump instituiu uma nova tarifa de 10% aos países, posteriormente ampliada para 15%. No entanto, o tema ainda envolve incertezas jurídicas, e a decisão não afeta tarifas adotadas sob outros mecanismos, como as aplicadas ao aço e ao alumínio.

Para o Brasil, o impacto de todas essas turbulências ainda é pouco claro. Enquanto o aumento do preço do petróleo tende a pressionar a inflação nacional, com consequências sobre o início, manutenção e profundidade do ciclo de corte dos juros, o país, por ser atualmente um grande produtor global de petróleo (maior que o próprio Irã), pode se beneficiar do aumento das receitas de exportação do produto. O caso das tarifas também exige maior atenção: estudos internacionais apontam o Brasil como o maior beneficiado das mudanças, na comparação com taxas mais baixas originalmente impostas a outros países, com uma queda de 13,6 p.p. das tarifas médias.

Nesse meio tempo, a divulgação do PIB do quarto trimestre de 2025 apontou um crescimento trimestral de 0,1%, fechando o ano de 2025 com uma expansão de 2,3%. Apesar de positivo, esse resultado aponta para um arrefecimento da atividade econômica, o que pode favorecer o início do ciclo de corte de juros, caso o cenário de maior estabilidade inflacionária se mantenha. A manutenção do câmbio no patamar de R$ 5,2 deve contribuir para esse movimento, podendo, no entanto, sofrer efeitos adversos das turbulências globais.

A construção acompanha esse momento de arrefecimento geral da economia. Os resultados mais recentes do PIB da construção, referentes ao quarto trimestre de 2025, demonstram forte retração, com queda de 2,3%. Com isso, o setor fechou 2025 com um crescimento de 0,5%, inferior ao observado no ano anterior (+4,4%). Apesar de esperada, a diminuição do quarto trimestre foi significativamente maior do que a prevista por entidades e pesquisadores da área, afetando as previsões anuais, que esperavam crescimento na casa dos 1,5%. Esse resultado, no entanto, parece refletir muito mais o lado informal da construção, com maior participação direta das famílias no consumo e na produção. Isso pode ser observado, por exemplo, na venda de materiais de construção no comércio varejista, que apresentou queda de 2% entre o quarto trimestre de 2025 e o de 2024. Ao mesmo tempo, o setor formal demonstra sinais de vigor, como no emprego, que continua a apresentar crescimento (+3,4%, jan/2025 contra jan/2024), e nos lançamentos e vendas de imóveis, especialmente os do Programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV), que em novembro (dados mais recentes) seguiu atingindo novos recordes da série histórica.

A despeito da surpresa negativa no quarto trimestre, se mantêm as projeções de crescimento para 2026 acima do registrado em 2025. Contribuem para essa expectativa positiva a efetivação de diversas ações governamentais anunciadas no ano passado, como as mudanças no SBPE (mais de R$ 40 bilhões estimados), o programa “Reforma Casa Brasil” (mais de R$ 40 bilhões estimados), as obras do ciclo eleitoral e os impactos da ampliação da isenção do Imposto de Renda na renda e no consumo das famílias. A isso se soma a recente proposta do governo, que aguarda aprovação do Conselho Curador do FGTS, de aumento de todas as faixas do programa MCMV. Por fim, permeando toda essa dinâmica estão as taxas de juros em nível elevado e restritivo. Com efeitos diretos e indiretos sobre todo o setor, incluindo as famílias (atualmente com alto nível de endividamento), alterações nas taxas tendem a afetar especialmente as linhas de crédito não direcionadas. Assim, o início do ciclo de redução da SELIC deve se mostrar positivo para o setor, especialmente a partir do meio do ano, contribuindo para um resultado anual superior ao de 2025.

Os dados mais recentes ajudam a fortalecer essa visão mais otimista, especialmente em relação ao setor formal. No caso do emprego formal, em janeiro foi observada uma retomada, com crescimento de 1,7% em relação ao mês anterior e expansão de 3,4% no período de um ano. São Paulo também apresentou resultados positivos, com aumento de 1,9% no mês e de 2,7% no período de um ano. Já a expectativa dos empresários da construção para os próximos seis meses (51,8) teve, em fevereiro, ligeira queda no caso do Brasil, mas se mantendo no campo da confiança, com São Paulo situando-se exatamente no nível de neutralidade (50).

Em janeiro, o consumo de cimento voltou a apresentar estabilidade (+0,1%), no acumulado em doze meses, enquanto o aço longo demonstrou nova queda (-1,2%). No período de um ano, o distanciamento entre os dois insumos é mais claro, com o cimento crescendo 4,1% e o aço longo recuando 1,6%.

O investimento do governo central voltou a apresentar desaceleração em janeiro, no acumulado em doze meses. No caso dos investimentos totais, houve estabilidade com viés de baixa (-0,3%), enquanto a abertura de “obras e instalações” apresentou nova redução (-1,1%), ainda que em menor nível do que no mês anterior. No período de um ano as diferenças entre os investimentos totais (+9,2%, puxado pelas transferências aos municípios) e apenas as “obras e instalações” (-10%) permanecem muito elevadas.

Em novembro (acumulado em doze meses), os lançamentos (+0,4%) e vendas de imóveis gerais demonstraram maior arrefecimento (+0,1%). Apesar dessa desaceleração, esse resultado levou a um novo recorde nos lançamentos, que totalizaram crescimento de 26,6% no período de um ano. Já as vendas apresentam, no mesmo intervalo, uma diminuição de 1,7%. O recorte apenas do MCMV demonstra resultados mais positivos, em especial por ser menos sensível ao ciclo de juros, apresentando novos recordes tanto de lançamentos quanto de vendas. Após crescerem 0,8%, os lançamentos acumulam expansão de quase 30% no período de um ano, enquanto as vendas aumentaram 1,2%, acumulando expansão de 2,9% no intervalo de doze meses.

No que diz respeito ao financiamento habitacional, em janeiro (no acumulado em doze meses) as operações contratadas com recursos do FGTS mantiveram o ritmo de expansão, crescendo 1,2%. Considerando apenas imóveis novos, houve crescimento de 1,6%, acumulando 19,1% no período de um ano. Paralelamente, as operações com recursos da poupança tiveram nova queda, de 0,9%, com retração de 18,3% no período de um ano, reflexo dos juros elevados.

Em termos de custos e preços, os dados de janeiro apontam para a continuidade do aprofundamento do distanciamento entre preços e custos. O preço dos imóveis, medido pelo IGMI-R, cresceu 1,3%, enquanto o custo de produção, medido pelo INCC-DI, teve alta de 0,7%. No período de um ano essa diferença fica ainda mais evidente: +19,7% nos preços contra +5,8% nos custos. Já a abertura dos custos pelo SINAPI aponta para uma aceleração mais pronunciada da mão de obra, que apresentou expansão acumulada de 10%, 2,4 p.p. acima do registrado no mês anterior. Em contraste, os materiais tiveram leve aceleração de 0,1 p.p., com expansão de 4,3%, abaixo do IPCA (+4,4%). Essa pressão da mão de obra se traduziu em um custo total da construção 1,1 p.p. acima do aferido em dezembro e significativamente acima do IPCA, com crescimento acumulado de 6,7%.

Os seguintes pontos de atenção devem ser acompanhados:

• Profundidade dos efeitos defasados e de um provável início de ciclo de cortes da taxa de juros a partir de março de 2026;

• Evolução do desempenho da construção após as novas medidas de estímulo do governo federal (novo modelo de financiamento imobiliário, programa Reforma Casa Brasil e prováveis alterações no MCMV) e o início do ciclo eleitoral;

• Evolução do FGTS no médio e longo prazo, com destaque para os efeitos do Saque-Aniversário após as mudanças em vigor desde o início de novembro de 2025 e do programa Crédito do Trabalhador;

• Comportamento dos custos do setor e da dificuldade de contratação de mão de obra, que continua a ser o principal componente a pressionar a inflação da construção;

• Consequências das medidas protecionistas e políticas do governo dos Estados Unidos, especialmente aquelas voltadas ao Brasil;

• Consequências dos conflitos geopolíticos em curso, especialmente a guerra dos Estados Unidos e Israel com o Irã, com possíveis efeitos direitos e indiretos sobre o setor, como aumento dos custos de materiais e diminuição do consumo das famílias.

Boletim publicado no Observatório da Construção/FIESP
 

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