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Construcarta Conjuntura: A queda do PIB em perspectiva

Em linha com as expectativas formadas no início da pandemia e da quarentena, o PIB brasileiro teve forte retração no segundo trimestre. Segundo o IBGE, já feitos os ajustes sazonais, o indicador apresentou variação de 9,7% frente ao trimestre anterior. Na comparação com o mesmo trimestre de 2019, a queda foi ainda mais significativa: 11,4%. Em ambas as bases de comparação, esse foi o pior desempenho da série de PIB trimestral inaugurada em 1996. Com isso, no acumulado em quatro trimestres encerrados em junho, a queda do PIB brasileiro chega a 2,2%.

Ocorre que, em tempos de pandemia ainda mais do que em tempos de calmaria, os números do PIB mostram uma realidade que já se afasta nos retrovisores das análises sobre o ambiente econômico. Uma forma de avaliar o tamanho do “tombo” no segundo trimestre é comparar o desempenho do indicador no Brasil frente a outros países.

Assim, somados, os países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) registraram queda de 9,8% no mesmo período. O pior resultado foi registrado no Reino Unido, onde a variação do PIB chegou a incríveis -20,4%. Na França, onde as medidas de bloqueio estavam entre as mais severas, o PIB encolheu 13,8% no segundo trimestre após a queda de 5,9% no período anterior. Outras quedas em destaque na OCDE foram observadas na Itália (-12,4%), Canadá (-12%) e Alemanha (-9,7%).

Nos EUA, a maior economia do mundo, por exemplo, a retração no segundo trimestre foi de 7,1% – ou, como gostam os americanos, 31,7% em termos anualizados. Vale lembrar que os programas emergenciais de complementação de renda do governo norte-americano incluíram pagamentos de US$ 1.200. Ao longo do período abril-julho, foram pagos mais de US$ 3 trilhões em auxílios governamentais ligados à pandemia. Em termos comparativos, ao câmbio atual, o PIB total do Brasil é de pouco mais de US$ 1,3 trilhão em um ano.

Nos países da União Europeia não foi diferente. No segundo trimestre, a queda dessazonalizada do PIB foi de 11,7% (ou 12,1% considerando apenas os países que fazem uso do Euro). Na região, alguns programas de auxílio a pessoas e empresas surpreenderam pela dimensão dos valores. Em resposta, a União Europeia suspendeu temporariamente a vigência das regras de austeridade fiscal para os países membros. Em paralelo, o Banco Central Europeu concedeu pacotes que somaram 750 bilhões de euros visando, sobretudo, garantir crédito e evitar a quebra de instituições financeiras.

No Reino Unido, o governo decidiu bancar os custos do afastamento dos trabalhadores por até 14 dias nas empresas com até 250 funcionários. Com isso, foram gastos cerca de 2 bilhões de libras (R$ 12 bilhões), beneficiando dois milhões de empresas. Por fim, no Japão, onde as medidas de isolamento foram bastante severas desde o início da pandemia, a retração entre abril e junho chegou a 7,8%. Naquele país, o pacote de auxílio à população aprovado em abril destinou US$ 240 bilhões para garantir a distribuição de 100 mil ienes (cerca de US$ 940) a cada residente do país. O programa foi ainda mais abrangente do que o norte-americano, incluindo até mesmo pessoas de alta renda.

Na América Latina os números seguiram a mesma tendência: -13,2% no Chile, -17,3% no México, -14,9% na Colômbia e -27,2% no Peru, sempre na  comparação entre o segundo e o primeiro trimestres deste ano com ajuste sazonal.  A grande exceção foi a China, onde os efeitos da pandemia já estavam sendo superados no segundo trimestre, período em que o PIB registrou alta de 11,5%.

Vistos em conjunto, todas essas informações permitem chegar a pelo menos duas conclusões. Em primeiro lugar, a retração da atividade econômica no Brasil foi típica do momento atual, dado que quase todos os países também registram quedas históricas, inéditas em tempos de paz. Apesar de nossas grandes fragilidades, a crise não atingiu o País com intensidade mais grave que a média mundial.

Mas, ao mesmo tempo, é possível notar que os países mais desenvolvidos também foram afetados e, apesar dos programas de auxílio bilionários – e até trilionários –, também sofreram fortemente com a pandemia no segundo trimestre. Resta agora acompanhar no Brasil e no mundo as trajetórias de recuperação. Talvez o pior já tenha passado, mas os desafios pela frente ainda são enormes.

A íntegra da análise realizada pela FGV em parceria com o SindusCon-SP está disponível aqui.

Matéria publicada no Sinduscon