Associação Brasileira da Construção

Industrializada de Concreto

Pandemia impõe novos desafios à produtividade da construção

Três especialistas em analisar a produtividade da construção civil trataram recentemente dos desafios que a pandemia de COVID-19 vem impondo ao setor. Durante webinar promovido pelo Centro de Inovação em Construção Sustentável da USP (CICS-USP), a pesquisadora e economista da FGV/IBRE, Ana Maria Castelo; o professor da Poli-USP, Ubiraci Espinelli, e o engenheiro civil Luis Henrique Ceotto avaliaram os obstáculos e apontaram caminhos para que a construção civil brasileira alcance níveis de competitividade compatíveis com países europeus e asiáticos, além de Estados Unidos e Canadá.

Para Ana Maria Castelo, preocupa o fato do Brasil produzir nos canteiros de obras apenas 23% do que países de Primeiro Mundo conseguem em seus empreendimentos. Outro dado alarmante é que, na comparação com outros segmentos industriais brasileiros, a construção civil tem produtividade 32% menor. “Em 2015, a FGV mediu a produtividade da construção civil e, de lá para cá, o cenário não melhorou. Pelo contrário, de 2007 a 2018 a produtividade da construção no Brasil registrou queda de 12%. Isso é reflexo também do cenário conjuntural e dos fundamentos da economia”, diz Castelo.

A economista, no entanto, concorda com Ubiraci Espinelli quando constata que existe um número cada vez maior de empresas da construção atentas em melhorar a produtividade através da qualificação da mão de obra e da melhoria de gestão. O resultado, como mostra o professor da Poli-USP, é significativo. Ele acompanha estatísticas relacionadas ao desperdício de materiais nos canteiros de obras desde os anos 1990. Naquela época, os números eram preocupantes. “Comparando dados da virada do século com os atuais, as boas construtoras conseguiram reduzir as perdas de materiais de construção nos canteiros em 50%”, revela.

Para Ubiraci Espinelli, o problema dessa melhoria de produtividade é que ela não é linear, ou seja, não se espalha por todas as construtoras do país. “A produtividade da construção vem evoluindo, porém numa razão menor do que o ideal. No entanto, a percepção é de que, embora o valor médio não tenha tido tendência forte de evolução, é viável melhorá-la. Principalmente, quando há melhoria dos projetos, adequação dos processos e organização nos canteiros de obras”, avalia o professor da Poli-USP, que acrescenta: “Produtividade é uma alavanca para o crescimento do PIB de um país.”
 

Formato tributário e de financiamento de obras no Brasil não estimula produtividade
O engenheiro civil Luis Henrique Ceotto compreende que o aumento da produtividade na construção civil deve ser antecedido pelo desejo de inovar das empresas. “A inovação é o principal fator de aumento de produtividade em todos os setores da economia. Na construção civil, temos no Brasil hoje toda a tecnologia disponível no mundo, mas não usamos. Insistimos na ideia de empilhar tijolos e nas consequentes práticas construtivas artesanais, muito improdutivas. A inovação que mais precisamos em nosso setor é aquela que concilia essas tecnologias com a estratégia de negócio de cada empresa”, afirma.

Além da inovação, Ceotto salienta que o formato tributário e de financiamento de obras no Brasil precisaria mudar para estimular a produtividade. Para ele, é necessário alcançar a isonomia tributária entre processos artesanais e industrializados. Além disso, o modelo de financiamento imobiliário praticado no país estimula os processos artesanais e de baixa produtividade. “Alta produtividade significa alta velocidade no ciclo de negócios e aumento da velocidade do retorno do capital investido. Quanto menor o ciclo, maior será a rentabilidade, mesmo com margens menores. Além disso, menores ciclos de negócio significam menores riscos e mais assertividade do planejamento estratégico das empresas”, conclui.

Matéria publicada na  Massa Cinzenta