Associação Brasileira da Construção

Industrializada de Concreto

Pesquisadores atuam para Brasil ter norma técnica de UHPC 

No Brasil, o concreto de ultra-alto desempenho ainda está delimitado ao campo das pesquisas. Conhecido pela sigla UHPC – abreviação do termo em inglês Ultra-High Performance Concrete -, esse tipo de concreto precisa de uma norma técnica para ganhar credibilidade e conquistar o mercado nacional. É isso que o grupo de trabalho 5 (GT5) do comitê técnico 303 do IBRACON (Instituto Brasileiro do Concreto) passou a priorizar.

O GT5 trabalha na elaboração de 3 documentos que servirão de texto-base para uma futura norma técnica brasileira de UHPC. O trabalho abrange especificações, dimensionamento, produção e classificação do concreto de ultra-alto desempenho. Atualmente, França, Japão e Canadá são os países que possuem as normas técnicas mais consolidadas para a aplicação desse tipo de concreto.

A informação sobre o trabalho do GT5 foi passada pelo pesquisador Roberto Christ, em palestra virtual realizada dentro do 1º Seminário Nacional de Obras Civis. O evento foi promovido pelo Instituto de Engenharia do Paraná, em parceria com o Grupo IDD. Engenheiro civil, Christ faz parte da equipe do ittPerformance, da Unisinos-RS, e estuda o concreto de ultra-alto desempenho há 11 anos.

O pesquisador resume o que faz do UHPC um concreto especial: “Trata-se de um concreto que apresenta grande resistência mecânica, possui alta fluidez e elevado desempenho. Ele incorpora propriedades de 3 tipos de concretos: reforçado com fibra, de alto desempenho e autoadensável. Os conceitos desses materiais originaram o UHPC.”

Veja outras características do UHPC mostradas por Roberto Christ em sua palestra:

– O UHPC é um concreto de matriz cimentícia, homogêneo com baixa porosidade e elevadas resistências à compressão e à tração na flexão.
– O desempenho do UHPC é devido principalmente à sua elevada densidade da matriz cimentícia, onde praticamente não existe capilares. Os constituintes deste tipo de concreto são predominantemente finos, onde o tamanho máximo dos grãos são de 2 mm.
– A utilização de aditivos nas misturas de UHPC são de fundamental importância, devido à baixa relação água/aglomerante presente na mistura.
– A utilização de fibras neste tipo de concreto também é de fundamental importância. Elas auxiliam tanto no controle das diversas retrações que podem ocorrer quanto na capacidade de suportar elevadas cargas sofrendo baixas deformações.

Os ensaios realizados no ittPerformance usam como base a NFP18-470 – a norma técnica francesa sobre o UHPC, publicada em 2016. Ela define os campos de aplicação do UHPC:

– Estruturas pré-fabricadas e elementos estruturais;
– Estruturas e elementos estruturais pré-moldados;
– Partes de estruturas submetidas a reparos;
– Estruturas para edifícios;
– Elementos não estruturais ou arquitetônicos pré-fabricados ou pré-moldados.

Concreto de ultra-alto desempenho esbarra no custo das microfibras de aço
No Brasil, enquanto não tiver uma norma técnica específica, o concreto de ultra-alto desempenho se submete à ABNT NBR 16935 (Projeto de estruturas de concreto reforçado com fibras – Procedimento). Essa norma é uma das mais novas vinculadas ao CB-002 (Comitê Brasileiro da Construção Civil) e foi publicada dia 18 de fevereiro de 2021. No país, o UHPC também atende pela designação de CUAD.

Além de carecer de norma técnica própria, o concreto de ultra-alto desempenho esbarra também no custo de seu principal agregado: as microfibras de aço, com no máximo 13 milímetros de comprimento e 0,2 milímetros de diâmetro. O Brasil ainda não fabrica esse material e seu uso necessita de importação, o que torna a produção altamente cara – o valor de 1 m³ do UHPC se aproxima de 1 mil dólares. “A fibra é nosso principal gargalo para a produção em escala do UHPC”, reconhece Roberto Christ.

Fora do Brasil, o material tem aparecido cada vez com mais frequência em obras especiais. Recentemente, o chefe do departamento de engenharia civil da Universidade Internacional da Flórida (Florida International University [FIU]), o professor-doutor Atorod Azizinamini, declarou que o “futuro das pontes está no CUAD”. Desenvolvido nos anos 1990, em parceria entre pesquisadores franceses e canadenses, o concreto de ultra-alto desempenho surgiu como uma encomenda especial da engenharia militar, para a construção de pontes pré-fabricadas com elementos esbeltos.

Matéria publicada no Massa Cinzenta